LUIZ
FLÁVIO GOMES (@professorLFG)*
Diante
de tanta corrupção no mundo atual (o caso mensalão que o diga) não há como não
aceitar a ideia de que devemos prestar atenção no discurso ético. Mas já não é
suficiente dirigir mensagens exclusivamente à consciência individual. Toda nossa
organização social, econômica e política tem que ser repensada e reestruturada.
A perversão moral generalizada nos estimula a pensar em algo mais profundo do
que melhorar o ser humano isolado.
No
mundo da atual economia globalizada de mercado já se tornou difícil distinguir o
que é ganho lícito do que é ganho ilícito. Tudo está se mimetizando (mesclando).
Tudo que se ganha com o tráfico de drogas, de armas ou de seres humanos se
mescla com ganhos lícitos, o que dificulta sobremaneira a atuação da justiça.
Está fazendo muito falta a exemplaridade, sobretudo dos políticos e das elites
econômicas, que valeria como guia para o comportamento de todos os demais seres
humanos. Na nossa vida pública, quem poderia ser identificado como pessoa
exemplar?
Em
tempos de mensalão, do PT e do PSDB (o primeiro já está sendo julgado pelo STF,
enquanto o segundo aguarda pauta), vale a pena (mais ainda) recordar noções
básicas da política e da Ética. A política está no plano do ser (do que é). A
Ética mora no plano do dever ser (como as coisas deveriam ser). A Ética diz: não
se comprometa com o erro, com o desvio, com o malfeito, com o tratamento
desumano das pessoas. Todos nós, que admiramos a Ética e os valores
republicanos, gostaríamos que a política seguisse os princípios éticos (que
houvesse coerência entre a teoria e a prática). Mas, desgraçadamente, Maquiavel
explicou que (a política) não é assim (em O Príncipe). O traço mais
característico da política consiste na sua radical autonomia frente à ética e à
religião. Entre o “ser” e o “dever ser”, o realismo político
(Realpolitik) faz uma clara opção pelo “ser” (pelo que é). Quando
coincide a prática com a Ética, tudo bem. Se não coincide, vale o realismo
político (porque está em jogo o poder, que deve ser conquistado, mantido e
expandido). O exercício do poder, quando não é feito em nome dos interesses da
nação, sim, dos ganhos privados, entra em rota de colisão com a
Ética.
Por
força dos princípios éticos e dos valores republicanos o PT não poderia ter
comprado apoio parlamentar de vários partidos nem o PSDB deveria ter feito seu
mensalão em Minas Gerais e muito menos conquistado ilicitamente apoio para a
emenda da reeleição de Fernando Henrique. Por que os políticos fazem isso?
O
líder político, diz Maquiavel, não pode nem deve pautar a sua conduta na
condução do Estado do mesmo modo que um indivíduo orienta sua vida privada.
Teoricamente não deveria ser assim. Mas assim é, na prática. A luta pela
conquista do poder (bem como pela sua manutenção e expansão) fala mais alto. O
impulso expansivo e agressivo da natureza humana está na raiz desse realismo
político. Maquiavel, em 1513, já explicava como tudo isso funciona (na prática).
Por isso que ele é considerado um dos pais da filosofia prática e um dos homens
mais sábios de todos os tempos.
LUIZ
FLÁVIO GOMES,
55, doutor em direito penal, fundou a rede de ensino LFG. Foi promotor de
justiça (de 1980 a 1983), juiz (1983 a 1998) e advogado (1999 a 2001). Siga-me:
www.professorlfg.com.br
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